Longe do Portão de Casa.[Parte I ]
No dia 8 de julho de 1988, as 00h50, no Hospital Geral Dantas Bião, na cidade de Alagoinhas, nascia uma menina, primeira filha, esperada por toda a família. O primeiro pensamento da mãe foi: “quero que você nunca saia dos meus braços”.
Mas como dizem os mais velhos, filho não é para pai, nem mãe, filho é para o mundo.
Muitos jovens saem da sua cidade no interior, para os grandes centros urbanos, a fim de trabalhar e estudar abandona seu lar e suas famílias, para viver sozinho ou com amigos em um mundo desconhecido. Há lados positivos e negativos neste êxodo, os jovens amadurecem mais cedo, pois são obrigados a ter responsabilidade, mas também muitas famílias acabam desestruturadas.
Lembro que meus pais nunca me deixavam dormir na casa de coleguinhas. Eles sempre precisavam viajar para trabalhar, e eu preferia dormir na minha casa, na minha cama, no meu quarto. Almoçava todos os dias, com minha avó, aquele arroz com feijão, um frango com cuminho e corante que só ela sabe fazer, o suco de maracujá aguado de minha tia, as perturbações do meu primo, meu cachorro, na minha perna, implorando por um pedaço de algo.
À noite aquele café com pão ou então uma farofa que minha outra tia, chegava do trabalho e ia fazer, eu claro não agüentava o cheiro da carne de sertão e tinha que comer um pouco com ela.
Dia de domingo, era só alegria. Meus primos todos reunidos, meu tio e alguma das suas namoradas, amigos da família. Uma mesa enorme rolava uma cervejinha, um vinho, uma lasanha, ou um pirão, ou uma feijoada. Uma verdadeira festa.
Contava os dias para o meu pai chegar de viagem. Quando era criança, toda vez que ele viajava eu ficava doente, era incrível, febre, moleza, tudo psicológico, já era a saudade que me atormentava. Quando meu pai chegava, íamos sempre almoçar fora. Á noite chegava com acarajé e guaraná, sentava-se à mesa, era muitas risadas, minha mãe e as cenas de ciúmes, sempre desconfiando que eu e meu pai estivesse aprontando alguma contra ela. Mas então, chegou o dia em que eu sair de casa.
Por favor, um mundo mais gentil.
Entro num ônibus lotado. Aquele aperto, tanta gente que assim como eu estão loucos para chegar em casa.Nenhum assento vazio.Carregadas de livros,mal consigo me segurar.Quando percebo que alguém toca no meu braço e gentilmente se oferece para segurar meus livros.Incrível como ainda existe pessoas educadas no mundo.Em meio a tantos balanços e é claro o medo de cair,passo com muito prazer os livros para esse gentil ser humano.
Opa!Um lugar vazio agradeço e pego meus livros de volta,mas eis que surge um problema,o assento vazio é aqueles exclusivos para idosos.Sentar ou não sentar?(eis a questão).Me deixar vencer pelo cansaço ou deixar o lugar vazio.Muitos vão dizer:”ué,senta quando um velhinho chegar levanta!”,outros dirão:”se já sentei,não vou sair do meu conforto.”E por ai vai…Bem,eu não sentei um apressadinho passou na minha frente.
Você que esta lendo agora essas linhas, me responda: quantos idosos ou deficientes visuais já ajudou a atravessar a rua?Se respondeu nenhum ou talvez uma vez, nossa como você é mal-educado. Se respondeu duas ou até quatro vezes,você esta chegando lá.Se respondeu sempre,Parabéns,mas você existe?
Quantas vezes já se estressou em um engarrafamento e assim não mediu forças ao apertar a buzina,abriu a janela soltou palavrões e gestos obscenos.Pode admitir que com a correria do dia-a-dia,se você não faz isso sempre,já teve vontade de fazer.
A questão é essa, os dias, as horas são tão curtos diante de tantos afazeres que nos propusemos a cumprir, que esquecemos de ser humanos, e assim gentil,educado.Substituímos o “obrigado”,”com licença”,”posso ajudar”,”por favor”,por…por…nada!É isso mesmo, nada!Simplesmente ignoramos o mundo a nossa volta e só queremos descansar após um longo dia de trabalho,atravessar a rua antes do sinal abrir e não chegar atrasado no trabalho,porque tempo é dinheiro.
É muita má educação para um país só. Pensem nisso e, por favor,substituam tanta arrogância causada pelo mundo capitalista,por uma gentileza que não vai tomar muito do seu tempo.E agora com a licença de vocês,vou aqui tomar um cafezinho(aceitam?),agradeço a atenção,voltem sempre e obrigado!
Nessa ultima sexta-feira fui parar num leito de hospital.Pois é…A sexta amanheceu para mim com dor nos olhos,no corpo,a garganta pior do que estava no dia anterior,com febre e uns bichinhos andando e picando meu corpo todo.Minha mãe resolveu me levar ao médico,na “Urgência 24 h Adulto”(gostei do Urgência,Emergência já está fora de moda.)Entramos na clinica e fomos direto ao balcão deixar os documentos.Eu já estava com frio por causa da febre e com o ar-condicionado fortíssimo me sentir no Polo-Norte.Uma senhora sentou perto de mim tremendo e disse a uma moça que estava do lado dela:”cadê o casaco,tô sentindo falta dele”.Eu pensei comigo,eu também senhora…eu também.
Lembro que assistir a Sessão Repetida da Tarde,a Ficção e enfim na milésima perseguição de Clóvis a Sônia fui chamada para fazer a ficha.Eu disse ficha!Consulta,pra quê?!(Sendo que logo quando cheguei,disseram que seria a quarta a ser atendida.)
Depois de meia hora fui levada para a sala da médica.Ela perguntou o que eu estava sentindo e foi me examinar.Quando colocou o estetoscópio em meu peito,só ouvir o “tiss”.Sabe aquela zuadinha de agua fria caindo num lugar quente?Pois é…”tiss”!
Depois disso(essa parte é ótima),ela diz para:”é jeniffer você está com a famosa virose do bororó.”Eu fiquei pasma,principalmente após a gargalhada que ela deu.Minha mãe perguntou:” e o que é bororó?”.A médica ainda em meio a risadas disse que era uma música de Motumbá.A coitada de minha mãe me olhou com uma cara,uma mistura de alivio,já que não era algo tão serio(a médica estava até rindo),e uma cara de interrogação,sabe aquela cara que você faz querendo perguntar “como assim?”.Gente,que é isso?A pessoa sentindo dores,e a médica vira e diz que é a virose do bororó?Pelo amor de DEus.Em que faculdade ela se formou?FMA?Faculdade de Medicina Axé?
Fui levada para um leito.Os leitos estavam quase todos ocupados.Tive os dois braços furados por agulhas,de um lado a medicação e do outro colheram amostra de sangue para o exame,o qual teria o resultado em 2 horas.2horas!Muito tempo.Tempo suficiente para fazer amizades e conhecer a história das pessoas que estavam em leitos próximos ao meu.Logo fiquei sabendo que a senhora que estava do meu lado sofria do coração,o neto dela era uma figura e foi ele quem tentou me explicar o porque da “virose do bororó”.”Bororó,é uma música do Motumbá,banda que fez sucesso nesse carnaval em Salvador.Virou febre.Todo o percurso foi no Bororó.Sendo que Bororó é o pai de Carlinhos Brow,essa música é uma certa homenagem a ele.O inicio dela não tem nada haver,é só para chamar atenção do povo,depois fala em radiola,carimbó,bota um pouco de cultura,pra poder chegar no Bororó.Sº Bororó”,explicou a figura.
Eu não me agüentei de rir.Fala serio,agara eu estava com a doença do Sº Bororó,pai de Carlinhos Brow.Minha mãe,alheia ao mundo do axé,disse que nunca tinha ouvido.Fui logo dizendo a ela para me lembrar de nunca mais dançar o bororó.
Conheci outra senhora que estava acompanhando o filho.E vocês já sabem com o que ele estava?Com o Bororó.A única diferença entre os nossos sintomas era que ele vomitava e sentia dores no estomago.Mas,era o tal do bororó também.Tinha uma moça loira com o namorado que também tinha entrado na moda.
O remédio já tinha acabado e a agulha ainda estava lá enfiada no meu braço.Havia um senhor que não parava de gritar,principalmente quando os auxiliares de enfermagem chegavam.Você conhecem os auxiliares de enfermagem?Não?São aqueles que fazem todo o trabalho que o médico e os enfermeiros não fazem.Quando você vai ao hospital nem se iluda que quem vai fazer um curativo,aplicar uma injeção ou tirar sangue ,é um enfermeiro mas sim um auxiliar de enfermagem.Aqueles que infelizmente não tem recursos financeiros para pagar 4 anos de faculdade ou muito menos tempo para cursar.
Voltando ao senhor que gritava.Eu não vou esquecer dos 1.625.500 reais que ele dizia ter.Repetia sem parar,isso para auxiliares,que ainda pediam para que ele dividisse com elas.Uma das coisas que me encantou nesse dia…lembra da figura que me explicou sobre o Bororó?Ele lia passagens da blibia para avó e animava-a:”Mulher não se preocupe daqui a pouco saímos daqui,e se prepare que nós vamos de biz,subir e descer essas ladeiras todas ai…vai ser sucesso”,dizia ele.
Me lembrei de quantos casos são noticiados nos jornais,de netos e filhos que roubam as aposentadorias dos idosos.Dos mal tratos que fazem os velhinhos passarem.Dos muitos azilos que existem pelas cidades em que parecem prisões onde o único “crime” que eles cometeram foi ficarem velho,”crime” esse que todos querem cometer um dia mas esquecem.Ainda bem que existe pessoas como essa figura.
Bem…a minha internação estava acabando,o menino que estava com a mãe e também tinha a virose do bororó,já havia recebido alta.E até que fim a médica veio falar comigo,não era mais a engraçadinha de mais cedo,era outra que nem tocou no bororó,ainda bem…Já estava cheia disso!
Fiquei a me perguntar qual será a próxima virose que vai surgir.E principalmente qual o nome que ela vai receber.Será outro axé?Pagode?Já pensou virose Problemática ou Merengue?Penso que vai seguir as épocas né?São João…Virose Aviões?Vão se prevenindo!
Apenas 24 horas.
“Restam apenas 24 horas”. O que você faria se lhe falassem isso hoje?Já parou para pensar?Os 365 dias já eram. Resta apenas um dia. Aquela historia de “nada como um dia após o outro” não existe mais. O momento é agora, apenas 23h59min (porque já passou um tempinho né?!)
A pergunta não é fácil de ser respondida, afinal de contas é sua vida que vai terminar, o mundo vai acabar (ops, desculpa as rimas.) A verdade é que nunca paramos para analisar a situação. Vivemos na ilusão de que sempre teremos uma nova chance, um novo dia para fazer o que sentimos, enfim para viver.
Pois hoje quero pensar nisso… E vou fazer uma brincadeira aqui com vocês. Hoje são 16/03/07. Voltemos no tempo… Sim, no tempo… Nem me achem louca… Dez dias atrás… 06/03/07!Acordei, me olhei no espelho e a imagem refletida me disse: Você tem apenas 24 h, o que você quer fazer?Pergunta difícil essa, respondi. A imagem me disse que quanto mais pensasse mais tempo perderia. Pensei rápido… Quero viajar com alguém e aproveitar esse dia com muito sexo!A imagem me respondeu, hoje é sexta-feira viaje.
07/03/07… Ocorreu-me o mesmo que no dia anterior, mas nem sabia se ainda estava vivo ou em outro lugar. Afinal não eram apenas 24 horas?Fiquei feliz mesmo assim, mais um dia, e nesse dia queria realizar minhas fantasias, tinha me empolgado com o dia anterior. 08/03/07… Acordei apaixonada e queria mais uma vez aproveitar as minhas ultimas horas, dizendo “eu te amo” a minha família. 09/03/07… Onde estou?Em casa ainda?Mais um dia?Ultimo?Ah…o que vou querer fazer…quero dizer verdades!
10/03/07… Hoje vou correr, pular, gritar, dançar, me divertir!11/03/07… Acordei e antes de ir ao espelho, liguei o som. Ivete Sangalo!Taí… Hoje vou raptar Ivetona levá-la ao G Barbosa e comer muito chocolate,vai ser uma verdadeira festa.12/03/07…hoje mais uma vez acordei romântica,quero viver o amor,tentar viver o que estou sentindo dentro de mim.13/03/07…espelho,hoje quero rezar,pedir perdão a Deus por tudo e agradecê-lo por cada dia.
14/03/07… Tá liberado geral!Vou colocar para fora todos os meus desejos sexuais.15/03/07…quero gastar cada centavo do meu suado salário.16/03/07…quero ser feliz,aproveitar cada momento da vida e para isso a partir de hoje vou me permitir perguntar todos os dias “o que você faria se restassem apenas 24 horas?”
Toda vez que piso no solo sagrado do Pelourinho,sempre me vem na cabeça a musica:”Ô Bahia,Bahia que não me sai do pensamento!”.Sinto um forte arrepio e uma grande vibração que me enche os olhos de água.O porquê?Depois explico,vamos adiante.
Hoje porém,o meu subconsciente nem teve chances de cantar a música para mim,pois fui recebida por músicos do hip-hop baiano que faziam uma apresentação do projeto Viva Salvador da Fundação Gregório de Mattos.Então,voltemos a fita(vamos fazer de conta né?!).Estou chegando no Pelourinho,escuto a batida,a mixagem de discos que toma conta da cabeça de jovens,três vozes grossas supostamente de homens,gritam…”pela história do povo negro que construiu essa cidade.”Levo um susto,abro ligeiramente a bolsa…papel e caneta em mãos!
Se me arrepiei?Se sentir a vibração?Claro que sim.Hip-hop,música negra,desabafo social.Era o “Boca do Inferno” ali,era Gregório de Mattos denunciando hoje a corrupção política,a desigualdade social,o sofrimento do povo negro na voz dos seus seguidores da modernidade,em pleno Pelourinho.
Logo ali,centro onde a cidade de Salvador começou.Onde no século XVII,escravos eram castigados em praça pública para que seus senhores demonstrassem seu poder.Agora,estavam ali negros,demonstrando o seu poder através de sua musica,procurando ser reconhecidos pelo seu valor como artista,ser humano.Não esquecendo suas origens e querendo justiça para o passado,presente e futuro.
Continuei a caminhar com aquela estrofe da musica na cabeça.E logo fui parada por um jovem negro,que se apresentou como um aidético e que disse:”Não sou ladrão,nem estou aqui para pedir esmolas.Sou aidético,preciso de ajuda e estou aqui para vender estes cartões-postais do Festival de Rua 2007,é apenas 1 real.”Um cartão colorido,acabei ajudando o jovem e seguir em frente.
Que lugar bonito de se ver é o Pelourinho.Sem duvidas é o local do verdadeiro encontro das cores.Digo isso não só pelas fachadas dos antigos casarões,das igrejas ou dos artesanatos que ali são vendidos.Mas também pela mistura de povos,são brancos,negros,índios,todo mundo junto,passando lado a lado encantados com a beleza e cultura baiana.
Turistas com cabelos trançados,fitinhas do senhor do Bomfim nos braços.Querendo levar para casa um pouquinho do nosso Brasil,da nossa Bahia,do nosso Pelô.Cheguei na ladeira,em frente a Casa de Jorge Amado.Era aqui.Onde tudo acontecia.Chicotes,gritos,dor.Demonstração de poder?”…Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade.Tanto horror perante os céus?!…”(E porque não citar Castro Alves?!).
Acordo do meu devaneio.Escuto o som do berimbau,do timbal…Capoeira!Luta,dança,arte!Quantas vezes não quis aprender e não me permitiram,porque “é coisa de homem e violento.”Mas isso nunca me impediu de estar sempre que possível numa roda de capoeira.
São tantas lojinhas com artesanato,botecos,restaurantes chiques,mulheres trançando cabelos dos visitantes.Aqui na Bahia não existe celebridade maior que o Pelourinho,nunca via tanto “paparazzi” em busca da foto perfeita de todos os pontos deste lugar.
Calor como sempre muito grande.Parei para comprar uma “gelada” e resolvi sentar numa calçada.Não demorou muito e passou um rapaz:”ei moça cabou com a latinha ai?”.Era um dos famosos catador de latas,hoje quase uma profissão aqui na Bahia,já que tem muita gente que vive disso,ainda mais numa cidade que tem festa todo dia.
Já estava quase no final da ladeira,perto da Igreja,onde fieis rezavam por causas próprias,por causas nossas.Resolvi subir a ladeira novamente e tive aquela mesma sensação.”…Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus?!…”
Passei por travestis,que com certeza estavam ali esperando por aqueles que não vieram em busca da cultura baiana,mas sim do turismo sexual que infelizmente a Bahia oferece.Isso se esses “aqueles” não considerarem o turismo sexual como cultura baiana.
Continuo com a minha caminhada,paro para comer uma acarajé,fico do lado de uma jovem que também faz um lanche e é interrompida por um rapaz de aproximadamente 25 anos que lhe diz:”Não to aqui pra roubá,desculpa se to interrompendo seu lanche.Sou de Porto Alegre,vim pra Salvador com minha mulher e dois filhos,mas fomos assaltados,levaram dinheiro e documentos.Agradeço a Deus por estar vivo.Nunca precisei pedir.Tem um policial ali que vai ajudar sábado com uma cesta básica.Eu só queria saber se a senhora tem 1 real para me ajudar a comprar uma lata de Mucilon pros meus fios.”A moça disse que não e ele se foi.
O Pelourinho é isso,mistura de cultura e pobreza.Desigualdade e igualdade social.Os “negros pobres” são vendedores de sua cultura,”os brancos ricos” são compradores desta cultura.Se não fosse pela falta dos sons do chicote,diria que estou no século XVII.Mas,calma não vou ser tão injusta assim,mudou muita coisa.,Hoje não cruzamos os braços,há mobilização social por parte de alguns.
Hoje,os descendentes brancos apreciam tudo aquilo que é feito pelos descendentes negros.Ainda bem que o tempo passa.E por falar em mobilização social.Voltei ao meu ponto de partida,e lá estavam os meninos do hiphop,cantando suas musicas.Devo dizer que já não estava mais prestando atenção nas letras,depois de tudo que vi,estava com tanta coisa na cabeça.
Pensei no belo e no feio que tinha o meu amado Pelô.E pensei …o que fazer?Para que o belo sobressai sobre o feio?Levantei a cabeça,voltei pro hiphop e eles me responderam:”ou você luta ou desiste!”.













