Passa o tempo e fica mais fácil esquecer
Tempo.
Tempo.
Tempo.
Tique Taque.
Taque Tique.
Depressa escorre pelos dedos.
Passa ligeiro pelos pêlos.
Arrepia quando os segundos correm.
Dá ansiedade quando os minutos voam.
E no passar dos dias nos sentimos cada vez mais atarefados.
Os dias são curtos para tantas obrigações.
As obrigações são tantas para um mês.
30 dias passam sorrateiros.
Meses passam como se fossem uma escada rolante em que nós somos meros coadjuvantes.
E o que dizer dos anos que passam trazendo rugas e a idade a cada novo tique taque?
Só se vê na Estação Iguatemi
É uma atração a parte em Salvador. Farol da Barra? Pelourinho? Dique do Tororó? Nada disso! Eu to falando é da Estação Iguatemi.
O último lançamento de Psirico? Só se vê na Estação Iguatemi!
O último DVD de Diante do Trono? Só se vê na Estação Iguatemi!
O último lançamento dos cinemas? Só se vê na Estação Iguatemi!
Arrocha de primeira qualidade? Só se vê na Estação Iguatemi!
Causos Soteropolitanos 2
Era um dia a tarde, ainda bem que o buzú não estava lotado. BusTV quebrado, tela toda escura. Só dava para ouvir a voz da mocinha que toda hora anunciava alguma coisa e em seguida tocava a música “Na base do beijo” de Ivete Sangalo. Isso se repetiu por três vezes! Três vezes!!!!!!!!!!! Eu não agüentava mais ouvir “comigo é na base do beijo, comigo é na base do amor”. E infelizmente tinha esquecido meu fone de ouvido em casa.
Mas eis que entra a salvação: um deficiente visual sanfoneiro que começou a tocar aqueles forrozins baum danado, de uma época maravilhosa, o São João. Logo ele virou a atração do buzú, e era impossível não ver uma perna ou cabeça balançando, ou um sorriso num canto da boca dos passageiros. E é claro o olhar curioso de uma criança, que mudou até de lugar para ver de perto aquela cena.
Incrível, ele tocar tão bem! Dando uma de psicóloga barata, imagino que com a perda da visão ele aprendeu a aprimorar outros sentidos, como a audição e o tato. E então eu penso do jeito que o mundo está, onde não temos mais o hábito de ouvir os outros, e muitos de tocar no outro, será que vamos ter que perder algo, para começar a aprimorar os nossos outros sentidos?
Ê Salvador que nos inspira, ensina e nos intriga.
Água de cheiro, flores e vestido branco
Acordou com o despertador. Acordou com março. Segunda-feira. O mês começava, a semana começava. Mais um recomeço.
Estava tudo preparado. Água de cheiro, flores, vestido branco. Faltava o mar. Mas tinha certeza de que não era ela quem precisava de uma renovação, mas sim as coisas e as pessoas que estavam ao seu redor.
Começou espalhando pétalas de flores no quarto, não sabia ao certo o que dizer. Mas sabia que tinha de ser bons pensamentos. Nada de pedidos, apenas boas vibrações, boas energias.
Depois foi a vez da água de cheiro, perfumou ainda mais a casa. Mais uma vez bons pensamentos.
Após o ritual, ela estava exausta. Acreditava que tudo de ruim que havia naquele lugar, estava pesando nos seus ombros. Sentiu-se cansada. Daquela vida¿ Daquele lugar¿ Daquela rotina¿ Sim.
Mas não adianta. Não há água de cheiro, flor e vestido branco que mude as outras pessoas, que acabe com a má energia de um lugar.
É você! Você que tem que mudar. A água de cheiro, as flores e os bons pensamentos tem que ser para você. Primeiro você muda, depois pensa em mudar o mundo!
Causos Soteropolitanos
Era um dia comum, numa semana comum.
Como assim? E desde quando na Bahia os dias são comuns? Todo dia meu rei, é um dia que entra na história seja pelas manchetes do Correio, pelas matérias do Na Mira, alguma descoberta de um vídeo sem noção no youtube ou simplesmente pelo cotidiano dos habitantes da cidade em que todo mundo é d’oxum.
Em Salvador é assim, todo dia é dia de acontecer, de fazer festa, de tomar uma, e de fazer uma oferenda rapidinha ali, um ebó rapidinho ali num poste no comércio, ninguém vai notar, coisa rápida.
Andando pelas ruas do comércio, me deparei com uma figura, vestido com uma camisa vermelha com a imagem de Iemanjá tentando a qualquer custo abrir uma garrafa de cerveja numa ponta de árvore, e ele conseguiu. E saiu a andar sussurrando alguma coisa. Deu uma volta em um poste derramando no chão a cerveja e a deixou lá. Coisa de 1 minuto. Saiu andando normalmente pela rua. E em menos de 1 minuto depois, um mendigo pega a cerveja dá uma olhadinha e uma boa golada e sai normalmente pela rua com sua boa Skol na mão.
Não deu no Correio, nem no Na Mira, também não está no youtube, mas são alguns dos causos da nossa Salvador. E aqui, meus caros, tem é causo para contar desses dias em que tudo pode e acontece.
Doidas e Santas – Veneno antimonotonia
Do telhado eu vejo e sinto…“…Até hoje, pergunta-se: para que serve a arte, para que serve a poesia?
Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo “Veja bem…” e daí em diante é um blablablá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento…”
2 de outubro de 2005
Martha Medeiros.
* Trecho tirado da crônica “Veneno antimonotonia” de Martha Medeiros. Estou lendo o livro Doidas e Santas que reúne as crônicas publicadas nos jornais O Globo e Zero Hora pela escritora.
*Fica a dica para quem gosta de boas crônicas. Para fazer o download do livro, clica aqui! E boa leitura!
* TCC sobre poesia em Salvador e Cachoeira. Em breve site no ar.


















