Boneca era a preferida dela. Todos os dias era uma brincadeira sem fim. Bem- me –quer, mal- me -quer. Passeio pelo jardim de flores amarelas. Serenatas na porta de Tia Dudu. Amarelinha com números rosa. E tantas outras coisas boas, sem falar nos planos que eram muitos.
Boneca tinha fitinhas vermelhas amarradas no cabelo, era de pano, fofa, macia , com um laço amarrado nas costas também vermelho, e cara de boneca. Uma vez numa brincadeira, Boneca ganhou o concurso “Fofa do ano”, dado carinhosamente por Ela.
Um dia Ela ganhou uma Flor, precisava regá-la todos os dias. E regava. Cuidava. E a Boneca era cuidada, “regada”, de longe. Ela brincava com Boneca apenas de longe. Boneca tinha um lugar de destaque na estante d’Ela,mas esse lugar não fazia nenhum sentido mais para Boneca,se Ela não fosse pega-la todo dia para brincar.Boneca precisava do toque,de sentir Ela, toca-la, ouvir sua voz de perto, brincar, gargalhar, sonhar junto com Ela.Junto, perto…algo chamado realidade, proximidade, e não mais distância, ilusão.Boneca precisa daquilo, o que ela sempre teve, e não tinha mais.
O tempo passou e Ela continuava distante de Boneca. E o que Boneca precisava era de coragem. Coragem para ir embora. Pensou muitas vezes em arrumar sua trouxinha e ir. Mas criava esperanças que Ela voltasse a ser como era. Até que um dia Boneca escutou alguém bater na sua janela na madrugada, não dava para ver o rosto desse alguém, mas era alguém, Boneca não pensou duas vezes, nem quis saber de trouxinha,e foi. Bastou o alguém dizer simplesmente:
-Foge, comigo Boneca!
Na madrugada,o celular
Mas era nas madrugadas. Onde a lua fugia do céu e ia dar um beijo rápido no sol antes que ele surgisse para as pessoas, para lhe desejar bom dia. Onde o sono era mais profundo. Onde o sonho era mais caliente, que o celular tocava.
Ela atendia… Horas e mais horas de conversas sobre tudo, todos, sobre o mundo. Presente, passado e futuro. Beijos imaginários.
-Feche os olhos amor. -Ela dizia
-Fechei…
-Mas, é sério… Não é para brincar!
-Já fechei.
-Estou com você agora, consegue sentir o meu cheiro?
-Hum… Consiguo sim… O seu perfume como sempre muito bom!
-Então agora sinta o toque dos meus lábios aos seus.
Risadas, sonhos, promessas.
Ela havia convidado-o para tomar um vinho, disse que levaria uma amiga de casa, então ele disse que também levaria um amigo.
A noite seguiu linda. A lua a brilhar no céu, as estrelas ao redor, e as mais atrevidas se atiravam no mar.
O vinho a todo o momento mergulhava nas taças e assim nos corpos esquentando os corações. As conversas eram das mais loucas, as risadas das mais altas e os olhares dos mais intensos.
Ela se despediu dele. Eles se despediram. Era cedo ainda, a lua não havia fugido ao encontro do sol, e quando isso ela fez… O sono era dos mais profundos, o sonho dos mais calientes e o celular tocou, mas era um toque diferente.
Ela só teve uma única certeza Ele ainda continuava preferindo as madrugadas, mas isso agora a atormentava.
Lata
Tinha uma casa , uma janela com flores e um coração.Já tinha amado João que a trocou por Maria,Sissinho que sumiu,Rodolfo que era tosco,o cara da padaria,o carteiro e suas cartas de amor,o delegado da rua de baixo e nos seus mais intimos sonhos um ator de Hollywood.
Um belo dia resolveu fugir,encontrar o desconhecido.Cansada da vida simples porém feliz,foi embora.Até que suas flores da janela murchassem,ela não voltou.
Encontrou o desconhecido com seu belo sorriso,seu jeito de pão doce,seu toque acolhedor,seu cabelo bom para cafuné.
Poesia.Dias.Dias.Poesia
Não se passou uma eternidade mas ele ainda servia e ela sumia para ele, murchava como as flores na janela,simplesmente nã
o existia.
O cenário era daqueles dos contos fantásticos,um verdadeiro sonho de olhos abertos.Um dia ela sonhou com os olhos fechados,e se descobriu no mundo encantado do Mágico de Oz ,e o seu pedido foi:
-Quero ser o Homem de Lata.








