Buzão “nosso” de todos os dias

É lamentável olhar pra nossa sociedade e constatar que, hoje, precisamos de leis para tentar garantir pequenos direitos. Benefícios que dependem tão somente da boa vontade e educação do outro. Dentre os vários, que poderíamos elencar aqui, quero refletir sobre a situação dos idosos nos transportes coletivos.
São humilhantes as situações vividas, cotidianamente, pelos idosos, em nosso país, que necessitam utilizar-se do serviço de transporte coletivo urbano.
A humilhação começa com o momento da espera nos pontos de paradas – que muitas vezes muitos motoristas não param o ônibus se virem um idoso sozinho; ou quando nos microônibus são proibidos de entrarem simplesmente porque a cota de passes já fora cumprida – perpassa pelo desrespeito e descaso dos condutores que não esperam esses idosos se acomodarem, arrastando o veículo bruscamente provocando tombos, ou, então, soltam-lhes piadas e insultos.
Essa situação agrava-se, ainda mais, com a má educação da grande maioria dos passageiros por dois motivos distintos: primeiro pelos que, fazendo uso indevido de um lugar, não dão a mínima para essas cansadas vidas – que tem que fazer malabarismo para sobreviver a uma viagem; segundo por aqueles que estão indiferentes à situação que está ocorrendo ao seu lado – agindo naturalmente como se tudo aquilo fosse normal ou como se não tivesse nada a ver com problema.

Afinal de conta, de quem é mesmo o problema?
Lembro-me da minha infância [e olha que não faz tanto tempo assim]. Bastava entrar no ônibus alguém mais velho, e não estou falando necessariamente um idoso, pra minha mãe logo me puxar para o colo dela. Confesso que aquilo era o mesmo que enfiar uma espada em meu coração ou arrancá-lo com as mãos. Eu odiava com toda minha força. Pois, tinha que entregar o meu lugar, normalmente à janela – criança tem um amor platônico por esse lugar – onde eu ficava a escolher qual dos carros que estava passando seria meu, para qualquer desconhecido.
Mas eu fui educado assim. A minha geração foi educada dessa forma. A geração dos nossos pais foi educada da mesma maneira e as dos nossos avôs também. As pessoas eram bem mais gentis e cordiais. A educação, realmente, era algo que vinha de berço.

Fico indignado quando sou forçado a presenciar situações como essas. Será que os infelizes dos motoristas dos transportes coletivos urbanos – não agravando a todos – não lembram que tem mãe e que certamente um dia estará na mesma condição?! E aqueles também infelizes, que vêem suas crianças ocuparem um lugar deixando um idoso em pé, será que não imagina que amanhã ele (a) poderá estar do outro lado da situação?! E o que dizer dos miseráveis que se apropriam dos lugares reservados e ladram como cães sarnentos, juntos a lixo espalhado, quando os de direito chegam pra fazer uso do lugar?!
Que educação está recebendo essas crianças? E que tipo de cidadãos se tornarão?
Parece irônico o fato de começar essa reflexão falando dos idosos e concluí-la com interrogativas sobre as nossas crianças. Mas, na verdade, existe uma, certa, simetria entre elas.
“Todo mundo está ‘pensando’ em deixar um planeta melhor para nossos filhos…
Quando é que se ‘pensará’ em deixar filhos melhores para o nosso planeta?“











Minha mãe é idosa e tem problemas de locomoção. Por incrível que pareça, eu não tenho muito o que reclamar do tratamento que a gente recebe nas ruas. Sempre tem alguém pra levantar e dar o lugar, ajudar a atravessar uma rua, abrir uma porta, entrar num carro e até pra dizer pra mim “você tem que cuidar da sua mãe” rsrsrsrs.
Faz um bom tempo que não pego ônibus com ela, mas das vezes que peguei, se não tinha lugar pra ela sentar porque tinha “jovens preguiçosos sentados” eu pedia o lugar pra ela sentar. Já fiz isso também com alguns idosos que não a minha mãe.
Acho que o desrespeito acontece não só por descaso, mas porque, por cultura, nós achamos que a lei diz que a prioridade do idoso se limita aos bancos da frente do ônibus e à fila separada dos bancos. Mas na verdade, o idoso tem PRIORIDADE pra sentar e ser atendido primeiro.
Acreditando que a lei dá o direito ao idoso de sentar apenas nos bancos da frente (e se não tiver mais lugar é problema dele) é que sentamos nos assentos do meio ou do fundo pra não ter que levantar e dar lugar para um velho. Quem nunca fez isso?
Claro que a sociedade tem que ter suas regras para que todos convivam bem, e é por isso que tem os caixas especiais nos bancos e supermercados e assentos separados nos ônibus. Mas se nós não fôssemos um povo aculturado, mesmo que sentado no meio do ônibus, cederíamos o lugar pra um idoso por dever e respeito.
Pois é Jacy… infelizmente essa é a triste realidade da nossa sociedade. E pior, ela tem caminhado para um estágio, ao meu ver, ainda mais deplorável.
Enquanto criança indignava-me por ter que sair do meu lugar favorito, mas hoje a minha indignação se dá ao presenciar o desrespeito ao outro – principalmente sendo essas pessoas merecedoras, não por conta de leis, de todo nosso respeito, afeto e zelo.
Hoje sou grato a minha mãe pelas infindáveis vezes que me arrancaste do meu lugar favorito.
Por isso, é que não devemos, nem podemos, nos calar diante de atos deploráveis como os citados no texto e tantos outros que desconhecemos.
Vamos, assim como a historia do beija-flor que tenta apagar o incêndio da floresta, tentar atenuar essa vergonhosa realidade. Vamos, nós que já nos despertamos do sono da ignorância, ser exemplo e conduzir outros a também serem. Quem sabe assim não alcançamos avanços significativos?
Obrigado pela atenção e por compartilhar conosco suas idéias e a sua historia de vida.