Bobo Desvairado 2

agosto 21, 2008 · Posted in Bobo Desvairado, literatura 

Estava entocado, mutilado, enterrado, no fundo de um buraco escuro o qual tinha cheiro de terra, algumas vezes molhada. Gostava de estar ali, porque tudo era previsível. O cheiro da terra molhada remetia-lhe a infância, há dias bons, em que o previsível era apenas a certeza, talvez de acordar no mesmo lugar, e o decorrer do dia não era nada previsível.
E então gostava daquele buraco escuro, as lembranças do passado eram boas, mas as do presente,nem se quer existiam,o futuro?Parecia-lhe previsivelmente previsível, estaria ali, sempre.
Tinha dias que reclamava, mas ali permanecia nada fazia.
Foi do nada (talvez do nada), que surgiu uma fresta de luz… Quem ousara pôr luz na sua escuridão?O sol… Maldito sol… Sol lembrava… Lembrava também aqueles dias… O cheiro da chuva… Sim, adorava os fins de tarde em que olhava o céu, e via chuva… Sol… Sentia a terra molhada embaixo dos seus pés, sentia o cheiro da terra molhada, sentia a vida!
Não quis tapar a fresta, não quis tapar o sol, não quis estar mais entocado, mutilado, enterrado, no fundo de um buraco escuro,quis aquilo que era seu por direito e que também por direito renegara,quis ir lá fora, quis ver o mundo outra vez.

Mania louca do ser humano de inventar a dor e permanecer nela. Procure viver apenas as dores reais, e procure o mais depressa possível acabar com elas. Lembre-se de festejar mais a vida!
(Bobo Desvairado)


Ao som de: Transfiguração – Cordel do Fogo Encantado

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Comments

17 Responses to “Bobo Desvairado 2”

  1. Andréia on agosto 21st, 2008 4:03 pm

    olá fofa! bom, acho que todos passamos por isso

    beijos

  2. *Raíssa on agosto 21st, 2008 8:28 pm

    Eu gosto do cheiro de terra molhada, mas detesto chuva, atrapalha tudo!

    Acho que todos nós nos escondemos em algum momento da nossa vida, mas depois nos tocamos e voltamos à vida.

    Beijos!

  3. Jô on agosto 22nd, 2008 1:58 am

    Que lugar mais interessante… volto com mais calma pra olhar melhor.

    Bjs, moça.

  4. ALF on agosto 24th, 2008 2:42 am

    Existe sempre um canto onde nos reservamos, onde ficamos alí solitários sentindo novamente a essências das lembranças trespassando por nós. Embora precisamos de momentos pra pensar, ficar sozinho, jamais devemos deixar de voltar ao ver o mundo de novo.

    :)

    Beijos Jenny
    te adoro

  5. Marta on agosto 25th, 2008 11:00 am

    O cheiro a terra molhada… quem não gosta :)
    Agradeço o teu comentário, volta sempre.

    Beijinho

  6. Márcia(clarinha) on agosto 25th, 2008 2:00 pm

    Lá vem o sol
    …”pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou”…

    Entocamos nossa alegria ao menor sinal de dor, covardia essa mania de tapar o sol com a peneira.

    lindo dia flor
    beijos

  7. Maldito on agosto 25th, 2008 2:02 pm

    Parabens pelo blog!
    Se mostrou perspicaz!

    Inté!

  8. Cá on agosto 25th, 2008 6:23 pm

    esse texto tem um Q de texto poético!
    aqueles de escritores famosos e com muita criatividade!

    adorei viu!!!

    beijão

  9. teaguentanosalto on agosto 26th, 2008 2:44 am

    Isso aí! devemos tentar nos livrar das “dores” o mais rápido possível! Se não, não dá! adorei o post!
    obrigada pela dica da fonte, já mudamos.. espero que tenha ficado melhor ahah tava mt simples e feinha a de antes mesmo..
    beijos, L.

  10. Mila on agosto 26th, 2008 3:28 am

    Comodismo… e medo… ai se acha que a dor que se tem… é menor do que a que se pode ser….
    Beijos Mila

  11. <<< GuigoFG. >>> on agosto 28th, 2008 2:07 am

    Hummm…

  12. Bárbara (B.) on agosto 28th, 2008 5:23 am

    Gostei do teu texto também, moça. Do teu texto e do teu canto. Fico lisonjeada com os elogios.

    Beijo meu.

  13. Ferdi on agosto 28th, 2008 2:45 pm

    A vida é engraçada, né? Esse versinho que encerrou seu post era EXATAMENTE o que eu precisva ler hoje.
    Brigada por me proporcionar isso.
    Beijos!!!

  14. Paulo D'Auria on agosto 28th, 2008 7:40 pm

    Embora o filme não seja sobre isso que vc fala em seu blog, essa mania humana de estar sempre sofrendo – (conheço muita gente assim! Viciada mesmo nesse sofrimento! (Desconfio que isso faz parte de nossa herança católica)) – embora não seja sobre isso, seu post me fez lembrar um filme excelente do Gabriele Salvatore chamado “Eu não tenho medo”. Quando puder, assista!

    Beijos!

  15. FINA FLOR on agosto 29th, 2008 4:27 am

    fez bem, entocar, guardar, esconder não presta, bom mesmo é sentir o sol.

    beijos, linda

    MM.

    >>> tomei um suuusto quando a voz do Lirinha começou, kkkk, tava um silêncio na minha sala, kkkk

  16. O Profeta on agosto 29th, 2008 3:32 pm

    Fecham-se as janelas de poente
    Acenderam-se os luzeiros no céu
    A cidade desperta para o arraial
    Uma noiva procura o perdido véu

    Os acordes da Banda no Coreto
    Uma tuba marca o compasso
    O clarinete dança na calmaria
    O Maestro solta gestos no espaço

    Bom fim de semana

    Mágico beijo

  17. FINA FLOR on agosto 30th, 2008 5:32 pm

    querida, como ando atrasada nos agradecimentos do canteiro e você sempre presenteia o espaço com selinhos, deixei lírios para você, vá colher….

    beijocas

    MM.

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    @scarmona interessante! tem algum post no teu blog sobre o tema? ;) - Dia: 29/07 - 23:36

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