Toda vez que piso no solo sagrado do Pelourinho,sempre me vem na cabeça a musica:”Ô Bahia,Bahia que não me sai do pensamento!”.Sinto um forte arrepio e uma grande vibração que me enche os olhos de água.O porquê?Depois explico,vamos adiante.
Hoje porém,o meu subconsciente nem teve chances de cantar a música para mim,pois fui recebida por músicos do hip-hop baiano que faziam uma apresentação do projeto Viva Salvador da Fundação Gregório de Mattos.Então,voltemos a fita(vamos fazer de conta né?!).Estou chegando no Pelourinho,escuto a batida,a mixagem de discos que toma conta da cabeça de jovens,três vozes grossas supostamente de homens,gritam…”pela história do povo negro que construiu essa cidade.”Levo um susto,abro ligeiramente a bolsa…papel e caneta em mãos!
Se me arrepiei?Se sentir a vibração?Claro que sim.Hip-hop,música negra,desabafo social.Era o “Boca do Inferno” ali,era Gregório de Mattos denunciando hoje a corrupção política,a desigualdade social,o sofrimento do povo negro na voz dos seus seguidores da modernidade,em pleno Pelourinho.
Logo ali,centro onde a cidade de Salvador começou.Onde no século XVII,escravos eram castigados em praça pública para que seus senhores demonstrassem seu poder.Agora,estavam ali negros,demonstrando o seu poder através de sua musica,procurando ser reconhecidos pelo seu valor como artista,ser humano.Não esquecendo suas origens e querendo justiça para o passado,presente e futuro.
Continuei a caminhar com aquela estrofe da musica na cabeça.E logo fui parada por um jovem negro,que se apresentou como um aidético e que disse:”Não sou ladrão,nem estou aqui para pedir esmolas.Sou aidético,preciso de ajuda e estou aqui para vender estes cartões-postais do Festival de Rua 2007,é apenas 1 real.”Um cartão colorido,acabei ajudando o jovem e seguir em frente.
Que lugar bonito de se ver é o Pelourinho.Sem duvidas é o local do verdadeiro encontro das cores.Digo isso não só pelas fachadas dos antigos casarões,das igrejas ou dos artesanatos que ali são vendidos.Mas também pela mistura de povos,são brancos,negros,índios,todo mundo junto,passando lado a lado encantados com a beleza e cultura baiana.
Turistas com cabelos trançados,fitinhas do senhor do Bomfim nos braços.Querendo levar para casa um pouquinho do nosso Brasil,da nossa Bahia,do nosso Pelô.Cheguei na ladeira,em frente a Casa de Jorge Amado.Era aqui.Onde tudo acontecia.Chicotes,gritos,dor.Demonstração de poder?”…Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade.Tanto horror perante os céus?!…”(E porque não citar Castro Alves?!).
Acordo do meu devaneio.Escuto o som do berimbau,do timbal…Capoeira!Luta,dança,arte!Quantas vezes não quis aprender e não me permitiram,porque “é coisa de homem e violento.”Mas isso nunca me impediu de estar sempre que possível numa roda de capoeira.
São tantas lojinhas com artesanato,botecos,restaurantes chiques,mulheres trançando cabelos dos visitantes.Aqui na Bahia não existe celebridade maior que o Pelourinho,nunca via tanto “paparazzi” em busca da foto perfeita de todos os pontos deste lugar.
Calor como sempre muito grande.Parei para comprar uma “gelada” e resolvi sentar numa calçada.Não demorou muito e passou um rapaz:”ei moça cabou com a latinha ai?”.Era um dos famosos catador de latas,hoje quase uma profissão aqui na Bahia,já que tem muita gente que vive disso,ainda mais numa cidade que tem festa todo dia.
Já estava quase no final da ladeira,perto da Igreja,onde fieis rezavam por causas próprias,por causas nossas.Resolvi subir a ladeira novamente e tive aquela mesma sensação.”…Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus?!…”
Passei por travestis,que com certeza estavam ali esperando por aqueles que não vieram em busca da cultura baiana,mas sim do turismo sexual que infelizmente a Bahia oferece.Isso se esses “aqueles” não considerarem o turismo sexual como cultura baiana.
Continuo com a minha caminhada,paro para comer uma acarajé,fico do lado de uma jovem que também faz um lanche e é interrompida por um rapaz de aproximadamente 25 anos que lhe diz:”Não to aqui pra roubá,desculpa se to interrompendo seu lanche.Sou de Porto Alegre,vim pra Salvador com minha mulher e dois filhos,mas fomos assaltados,levaram dinheiro e documentos.Agradeço a Deus por estar vivo.Nunca precisei pedir.Tem um policial ali que vai ajudar sábado com uma cesta básica.Eu só queria saber se a senhora tem 1 real para me ajudar a comprar uma lata de Mucilon pros meus fios.”A moça disse que não e ele se foi.
O Pelourinho é isso,mistura de cultura e pobreza.Desigualdade e igualdade social.Os “negros pobres” são vendedores de sua cultura,”os brancos ricos” são compradores desta cultura.Se não fosse pela falta dos sons do chicote,diria que estou no século XVII.Mas,calma não vou ser tão injusta assim,mudou muita coisa.,Hoje não cruzamos os braços,há mobilização social por parte de alguns.
Hoje,os descendentes brancos apreciam tudo aquilo que é feito pelos descendentes negros.Ainda bem que o tempo passa.E por falar em mobilização social.Voltei ao meu ponto de partida,e lá estavam os meninos do hiphop,cantando suas musicas.Devo dizer que já não estava mais prestando atenção nas letras,depois de tudo que vi,estava com tanta coisa na cabeça.
Pensei no belo e no feio que tinha o meu amado Pelô.E pensei …o que fazer?Para que o belo sobressai sobre o feio?Levantei a cabeça,voltei pro hiphop e eles me responderam:”ou você luta ou desiste!”.
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Photo: “Tu, e somente tu, terá estrelas que sabem rir.”
Jeniffer, li o texto e fiquei aqui pensando em como comentar, vou fazer um breve comentario, n?o t?o bem escrito como os seus textos, at? porque sou limitado nessa arte e minha criatividade prevalece inexistente. A cr?nica esta muito bem escrita, uma liguagem leve, alegre mas que demostra um grande conteudo. Meus parabens ! Beijos