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jun 1, 2007
Jeniffer Santos

Longe do Portão de Casa.[Parte IV ]

Um dia desses navegando pela internet, encontrei as vantagens e desvantagens de morar sozinho.
Vantagens:
1°:- Ninguém irá controlar o seu horário (isso é verdade,acordo na hora que quero,chego em casa quando bem quiser)
2°-Você não receberá mais ordens de arrumar o quarto (é mais também, com certeza se você não for uma pessoa organizada, um dia você não conseguirá dormir nem na própria cama).
3°-Você pode comer o que quiser, na hora que tiver vontade (e parar no hospital algumas vezes por isso, uma amiga minha já parou duas vezes no hospital com problemas intestinais, por conta da comida maravilhosa que ela faz, e das besteiras das lanchonetes).
4°-Você dá mais valor às pequenas coisas que conquista com seu próprio dinheiro e esforço (isso é outra verdade, depois daquela única faxina geral da semana, você fica com pena até de usar um copo).
Desvantagens:
1°-Você terá que arrumar a sua bagunça, lavar e passar a roupa e encarar outras tarefas “do lar” (um das piores coisas para muitos que saem de casa).
2°-Pode ter que encarar momentos de solidão (se você está acostumado com uma grande família, a solidão vai ser grande, dia de domingo então… tenho um amigo que dia de domingo corre para minha casa, para filar o rango e aproveitar a companhia).
3°-Você pode ter que dar adeus – ao menos por um tempo – a luxos que tinha na casa dos pais, como TV a cabo, faxineira, carro, geladeira cheia de guloseimas etc. (isso com certeza, nada mais vai está na sua mão quando você procurar,ou se esforça para ter,ou nunca mais terá)
4°-Pode ficar sem tempo para fazer várias baladas por conta do tempo tomado com idas ao banco, ao supermercado, faxina da casa… (caso você não queira que seu nome vá pro SPC, ou que a geladeira fique vazia, e a casa que é sua e que você dorme todo dia, receba visitantes não muito queridos).
Talvez se tivesse encontrado essa lista antes de me arriscar a morar sozinha, eu nem estaria agora escrevendo esse ensaio, mas também deixaria de viver grandes emoções e aprender com cada uma delas.
Quando falava para os amigos que morava sozinha, e que a casa era grande, todo mundo queria fazer uma festa, mas nunca quis. Se meus pais descobrissem, perderia a confiança em mim, e não quero que isso jamais aconteça.
Já cheguei umas duas vezes bêbada em casa, moro perto de um bar que é famoso entre a galera da faculdade,não sei como subir as escadas de casa,na verdade nem sei como cheguei em casa,e por um lado foi bom,chegar em casa,dormir,levantar no outro dia,e não ouvir minha mãe reclamar com minha avó que tinha chegado tarde demais e com cheiro de cachaça.
Nunca me acostumei a dormir no quarto, dormia na sala, em cima do colchão de casal, perto da televisão e do computador (que chegou uns três meses depois). Nos primeiros dias, não conseguia dormir, por causa da claridade (aqui tem muitas janelas), e também pela sensação de não estar necessariamente entre quatro paredes.
Já paguei muita conta de luz e água atrasada, porque nem me dava conta de ir buscar os recibos no vizinho. Parei de tomar café, por pura preguiça de fazer.
Lembra do dia em que minha mãe me visitou, alem de lavar as roupas, ela limpou o fogão também, e deu um jeito no banheiro. Chega a ser até uma vergonha está falando isso, mas é a verdade, nunca me interessei por nada disso. Devo dizer que depois dessa visita, muita coisa mudou. Percebi que não estava dando valor a todo esforço que meus pais estavam fazendo, e resolvi mudar, passei a arrumar a casa, lavar minha roupa (lavava sempre aos domingos, nem sei o porquê), e a organizar melhor minhas coisas.
Passei a ter um vigia, que era a mãe da amiga que morava perto de mim, que em um dia em que foi me “vigiar”,encontrou meu macarrão delicioso na geladeira,e é claro um monte de comida,passada da validade-eu tinha mudado,mas nem tanto- ela ficou espantada com a aparência do meu macarrão,e me perguntou como eu podia comer aquilo,parecendo até que eu tinha outra opção.
jun 1, 2007
Jeniffer Santos

Longe do Portão de Casa.[Parte III ]

Estar em Salvador era um sonho, apesar de ser apenas 1h30 da minha cidade natal, era raro vir à cidade de todos os santos. Estava feliz. Com muito esforço, acabei indo para uma das melhores faculdades. O problema era agora encontrar um lugar. Tinha vários amigos que moravam na cidade, e até mesmo parentes. Mas morar em casa de família, onde já existe uma rotina é complicado, ainda mais para mim, acostumada com uma vida louca,onde fazia o que queria na hora que queria,sendo a minha única certeza a hora de ir para a faculdade.
De inicio iria dividir apartamento, com uma tia que aguardava o resultado da UFBA, e uma prima que já morava na cidade. Acabou que minha primeira moradia, foi na casa da filha de uma amiga de minha mãe. Uma menina que nem conhecia, mas que graças a Deus era muito gente boa. Morei com ela mais ou menos duas semanas. Era raro varrermos a casa, ela vivia ocupada com a monografia do mestrado e eu com a televisão. O almoço ela que fazia, teve um dia que almoçamos cachorro-quente, foi muito engraçado.
Fazer compras era um saco, a fila imensa, conseguir gastar 70 reais, só em bolachas, doces, matérias para higiene pessoal, pouquíssima coisa. Arrumei um namoradinho logo na primeira semana da faculdade, e ele foi uma pessoa que me ajudou a acostumar com a nova cidade, ele uma amiga de Alagoinhas que mora em Salvador e a mãe dela. Receber os telefonemas do meu namoradinho supria a necessidade de carinho, afeto que eu tinha que com certeza não era igual a da minha família, mas era muita coisa. Estar com essa minha amiga, me lembrava Alagoinhas, ficávamos horas relembrando e resenhando sobre os tempos de colégio e cursinho, e olhando a vida dos outros no orkut.
E assim fui me acostumando. Minha mãe estava à procura de um lugar para mim. Encontramos um apartamento perto da casa dessa amiga, esse apartamento ia ser dividido para mim, minha tia e minha prima, mas infelizmente nossos planos foram por água abaixo. Esperar o grande dia, em que estaríamos juntas, também estava me ajudando a me acostumar com a cidade nova, elas trariam para mim, um pedacinho da minha família.
Acabou que minha mãe alugou um apartamento com três quartos, uma sala enorme, um banheiro e cozinha, rodeado de varanda para mim, apenas uma pessoa.
Dois quartos ficaram vazios, em um dos quartos que disse logo que era meu, havia duas janelas, sempre quis quarto com janela, colocamos uma cama e um guarda-roupa de solteiro. Na sala havia uma mesinha de centro, e um colchão de casal, que a locatária havia deixado no apartamento, para se quiséssemos usar, o único cômodo completo era a cozinha, armários, geladeira, fogão, liquidificador, e algumas coisas básicas de cozinha, tudo isso porque eu não ia receber uma marmita na porta do quarto, eu ia cozinhar para mim.
Em 15 e 15 dias, eu viajaria para Alagoinhas, traria feijão cozido, a famosa galinha com cuminho e corante de minha avó, e só precisaria cozinhar arroz ou macarrão. Que desastre, cozinhava, e era ruim. Só uma vez conseguir, fazer um macarrão bom, também coloquei, catchup, maionese, orégano, queijo ralado, tanta coisa, que ou ia ficar bom, ou ia me dar uma dor de barriga daquelas, e ficou uma delicia,não me agüentei de felicidade,tive que enviar uma mensagem para minha tia a cozinheira oficial da família,falando dessa minha conquista.
Já não agüentava mais comer macarrão, que lá no fundo eu ainda achava que ele estava um pouco cru, pois conheço bem o gosto de um macarrão cru, comia muitos quando era criança.E resolvi fazer arroz,mas temperado é claro,para sair mais gostoso,na verdade seguir a receita que tinha atrás da embalagem do arroz,ficou bom,até o meio da panela,porque o resto tava preto.Colocava a galinha para assar,e saia correndo da cozinha,tenho medo de óleo quente,mas nunca queimei nenhum pedaço da galinha,mais outra conquista.
Não sei porque o forno do fogão nunca funcionou aqui,e só vim descobri isso quando uma tia minha,veio passar uma semana comigo,e olhe que já tinha quase um mês,dando uma de cozinheira. Minha tia foi embora e eu nem me importei de chamar alguém para consertar o forno.Minha avó havia mandando umas pizzas para mim,mas como não tinha forno e estava morrendo de vontade de come-las,eu simplesmente fritei as pizzas.Peguei a assadeira,coloquei elas em cima,nem passei óleo,porque também já seria loucura demais,virava elas como se estivesse assando frango ou carne.Ficou uma delicia,coloquei um monte de catchup e maionese em cima.
Nunca lavei o banheiro do meu apartamento até hoje, só passei pano na casa uma vez, por causa da poeira que era demais. Varrer?Uma vez por semana. Lavar roupa?Na primeira visita de minha mãe aqui no apartamento, ela teve que lavar todas as minhas roupas.Jamais me interessei por assuntos domésticos, sempre tive tudo na mão, e a preguiça não me deixava aprender nada. Essa historia de morar sozinho, é loucura, ter que aprender isso tudo da noite para o dia, o bom é que você pode fazer tudo na hora que quiser, e como quiser.

jun 1, 2007
Jeniffer Santos

Longe do Portão de Casa.[Parte II ]

A base da família, estava quebrando-se, muitos jovens no Brasil, passam por isso, como muitas cidades do interior, ainda não possui boas faculdades, boas oportunidades de emprego, resta apenas, se quisermos um futuro diferente, ir para a cidade grande.
A primeira experiência que tive, em morar sozinha foi na cidade de Feira de Santana, fazia faculdade a noite, viajava todo dia, de Alagoinhas para Feira de Santana, mas após ser assaltada em frente à faculdade,quando esperava o ônibus,tomamos a decisão de que eu precisava ir morar em Feira de Santana.
Uma menina que nunca havia dormido na casa de alguém, agora tinha que ir morar sozinha numa cidade nova, maior que a minha. Saímos à procura de um local, encontramos um pensionato familiar, quarto individual com banheiro, para mim tinha que ser individual, não passava de jeito nenhum pela minha cabeça a idéia de dividir algo com alguém, queria o meu espaço, como sempre tive.
Em menos de uma semana me mudei. Quando entrei no quarto que conseguia ser menor que o meu de Alagoinhas, mesmo tendo banheiro. Sentir um vazio tão grande tinha uma cama, TV, som, guarda-roupa, uma banquinha com cadeira, não havia espaço nem para colocar o meu computador. Como não sabia cozinhar, minha mãe encomendou marmita, que era entregue na porta do meu quarto todo dia ao meio-dia, mas que eu só comia, lá para duas da tarde.
Minha rotina era, vou começar, de onde realmente começava o meu dia, as 18 h ,quando ia tomar banho para ir a faculdade,ia a pé, o pensionato era perto da faculdade, mas passava por cada lugar,que eu tinha que ir rezando,ainda mais pela fama de violenta que Feira de Santana possui.Tomava todos os dias café na faculdade,eram as únicas vezes no dia que me alimentava direito,quando comia a marmita e a noite na faculdade.Retornava para casa 22h30,torcia para arrumar carona,ou saia mais cedo da aula para pegar o aviário de 22h20,pois depois disso era meio complicado,e se não tivesse nenhum dos dois,ia a pé mesmo com amigos.
Chegava a casa, ligava a tv. Assistia filme ou algum programa, acabei gostando de Jô Soares e não conseguia realmente ir para cama sem ele,assistia também as edições repetidas do Jornal do SBT,logo em seguida os seriados que passam na madrugada e filme em algum canal,qual fosse o melhor.Li seis livros de Sidney Sheldom em menos um mês,e alguns de Paulo Coelho,entre outros,foi a época que mais li livros até hoje.Gastava uma bateria do pen-driver em três dias,escutando musicas e rádios,para passar a noite que era longa,já que ia dormir quando o sol já estava nascendo.Um dia vi o sol nascer pela janelinha do banheiro.Haviam noites em que eu chorava,sentindo falta de toda a agitação da minha família,de poder pedir a benção a minha mãe,mas estar ali onde eu estava implicava em alcançar um sonho,então sofria calada,agüentava tudo aquilo.
A hora do almoço era esquisita, aquela mesa enorme que havia na casa de minha avó tinha tornado-se para mim, a cama ou a mesinha, a companhia era a TV.Estudava,quando estava afim,não tinha ânimo nenhum para sair de casa, e para estudar. Estava branca, pois passei tempos sem saber o que era sol. Não sei como passei no semestre, pois realmente não tinha paciência para estudar, meu ânimo havia acabado totalmente, faltava algo para me motivar e eu já sabia o que era. Toda vez que escrevia um texto, minha editora-chefa era minha mãe, ela lia, me ajudava, me incentivava. E naquele momento não tinha mais nada disso. Contava as horas para chegar o final de semana e poder voltar para casa, ficar perto de quem me ama. E poder cantar aquela música dos Titãs: “Eu cheguei em frente ao portão,meu cachorro me sorriu latindo.Minhas malas coloquei no chão.Eu Voltei… Quando vi dois braços abertos,me abraçaram como antigamente,tanto quis dizer e não falei, e chorei. Eu voltei, agora pra ficar, por que aqui, aqui é meu lugar…”
Queria viajar 23 h mesmo de ônibus, não importava a hora que eu ia chegar em casa,só queria chegar em casa,abraçar minha mãe,dormir na minha cama,e acordar já com minha avó gritando o meu primo pela rua.
E essa minha vontade, rendeu muitas brigas com minha mãe, ela preocupada com essas viagens, não queria me deixar voltar no ônibus à noite. Eu acreditava que ela não compreendia a falta que sentia de todos, e ela acreditava que eu não compreendia que era perigoso, e que ela ficaria preocupada. Essa é a intensa relação Pais e Filhos.
Quantas vezes menti, dizendo que não havia aula, na sexta-feira, para poder voltar para casa logo na quinta. Quer dizer não cheguei a mentir totalmente, aula mesmo não tinha na faculdade, e eu ainda dava um jeito de filar, pegar o assunto depois e ainda passar tranquilamente.
Estava cansada daquilo tudo, apesar de ter amigos na faculdade, não sentia vontade de ficar um final de semana naquela cidade, queria ir embora. Na verdade, queria voltar para minha casa e detalhe, para sempre.
Então um dia eu decidi que ia acabar com aquilo tudo. Pensei em me matar uma vez, foi loucura, peguei uma faca de serra, aquela pequena que corta pão, e passei pelo meu punho, queria cortar, queria ver sangue,mas nada disso aconteceu,não tinha forças o suficiente,não tinha coragem para fazer aquilo,porque eu uma menina que tanto amava a família,ia se matar,para que?Por quê?Não sabia, mas era o que eu queria. E graças a alguma força superior, nada disso aconteceu. Acabei com aquilo tudo de outra maneira,falei para minha mãe,que não estava feliz,pois apesar desses problemas,a faculdade também não era das melhores,já não tinha animo para estudar,e não havia incentivo para seguir em frente por parte da faculdade.
Os adolescentes têm medo de conversar com os pais, muitas vezes é porque os próprios pais não abrem espaço para o dialogo em casa, mas a base para um bom relacionamento é o dialogo, principalmente entre pais e filhos, pessoas de gerações diferentes, com pensamento diferente, precisam conversar se entender, e cada um mostrar seu lado, para que se chegue a um consenso e todos os lados saiam ganhando.
Resolvemos que ia sair de Feira de Santana, começamos uma busca das faculdades em Salvador, eu estava resolvendo um dos problemas, que era a faculdade, mas ainda não ia ter minha família perto de mim. Mas acreditava que se pelo menos alguma das duas coisas funcionassem, eu poderia agüentar até o fim.
Foi então que eu sair de casa novamente.
Páginas:«12

.a menina do telhado.

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